Aquela blusinha já foi dinheiro
As coisas que a gente tem já foram tempo e dinheiro.
Claro que a gente precisa comprar coisas, novas coisas, elas têm um tempo de duração, nada é pra sempre. Tudo precisa de manutenção, de cuidado, e eventualmente é preciso trocar. A cobra sai da pele, a árvore perde a folha. É completamente normal.
Mudei pra esse apartamento faz alguns meses e, quando vi, já tinha enchido as gavetas de coisinha e mais coisinha. Resolvi botar em prática uma brincadeira que eu gosto: o jogo da caixa.
É colocar tudo que você tem dentro de uma caixa e não deixar nada solto na casa. À medida que você precisa de alguma coisa, vai tirando da caixa.
Dá pra fazer isso com qualquer coisa, até utensílio de cozinha, mas aqui já tenho bem pouco, porque eu moro no Vietnã, e no sudeste asiático é muito mais comum, barato e sociável comer fora do que cozinhar em casa.
Mas o ponto não é esse… gente compra mais do que precisa, às vezes mais do que pode. E gasta dinheiro não só porque precisa ficar bonito, mas porque quer ser aceito. Seja no escritório do trabalho, seja pra acompanhar alguma tendência na internet, a gente quer fazer parte.
Tirar em vez de adicionar
Faz alguns anos que eu descobri o minimalismo como exercício.
A graça é que, em vez de adicionar mais e mais coisas na vida, você tira e vê se ainda continua tudo harmonioso. E dá pra praticar isso com os pertences, mas também com tarefas, hábitos, pessoas, situações.
A gente costuma começar pelos pertences porque é o mais concreto, e porque as grandes empresas gastam milhões em propaganda justamente pra essa enxurrada de coisas não parar de chegar, então temos muita coisa acumulada pra brincar de minimalismo rs
Um jeito clássico de começar é contar o número de coisas que você tem.
Se você procurar na internet, vai achar vários métodos.
Um famoso é o 333:
você fica com trinta e três peças de roupa e troca de tempos em tempos, a cada três meses mais ou menos. Roupa de ginástica, pijama e roupa íntima geralmente não entram na conta. (não to falando de comprar tudo novo, mas botar numa caixa o que não usa e deixar só 33 peças á vista, por exemplo)
Comigo isso virou quase uma coincidência engraçada, porque nos últimos quase 3 anos viajando eu ficava uns três meses em cada lugar, chegava, comprava o que precisava de diferente, doava ou vendia o que não precisava mais, e dava certinho… principalmente produto pra pele, se vc usa todo dia certin, por exemplo, dura praticamente três meses mesmo.
Mas agora que eu tenho morado no mesmo apartamento por uns 8 meses, a minha regra é: tem que caber nos móveis que tenho aqui.
Tenho uma cômoda e uma arara, e as minhas coisas precisam caber ali dentro sem ficar tudo espremido. Tem que sobrar espaço pras coisas respirarem, pra quando eu abrir a gaveta eu ver exatamente o que tem ali, todas as opções, nada escondido.
São umas seis gavetas, mas no fim eu uso quatro, organizadas mais ou menos como eu já fazia quando morava em São Paulo (ta no vídeo acima)… a gente vai ficando velho e mesmo que mude muita coisa, algumas manias ficam né rs
Se desfazer de tudo
Tem uma coisa que nunca funcionou pra mim, que é se desfazer de um monte de coisa de uma vez só. Aquele “ah, beleza, não preciso mais disso, vou botar pra vender, vou resolver agora”. Eu acho mais interessante o jeito da caixa: coloca num canto, fora do seu dia a dia, e marca no calendário pra revisitar daqui a dois ou três meses.
Porque quando você vende rápido demais, achando “não usei nos últimos dois meses, vou vender”, pode ser que daqui a pouco você tenha que comprar de novo por algum motivo. (muita gente relata isso, tipo esse moço no vídeo abaixo)
E aí vira aquela bagunça de comprar e vender, comprar e vender, procurando uma barata, vendendo uma. No fim você gasta mais tempo e dinheiro, e continua se preocupando demais com coisinha, quando a ideia era justamente não ficar pensando em coisinha rs a ideia do exercício é exatamente o contrário: usar o minimalismo pra refletir nossas prioridades e passar mais tempo aprendendo, se relacionando...
Sem maquiagem
Tem um livro de que eu gosto muito, que na verdade é uma tese de doutorado da Ludmila Abílio, chamado Sem Maquiagem.
Ela entrevistou várias revendedoras de Avon, e esse universo é fascinante porque atravessa todas as classes sociais. Tem revendedora muito pobre e tem revendedora muito rica, e em todas elas revender é uma forma de socialização, de ganhar dinheiro, de pertencer.
O que ela vai destrinchando é como essa grande empresa pegou a sacada de transformar o produto, na verdade, no estilo de vida da pessoa.
As revendedoras mais pobres, que mais precisavam da venda, acabavam com pilhas de produto acumulado em casa, coisa que elas nem usavam, só porque a revistinha chegava com desconto e dizendo que era imperdível.
E isso é absurdamente relacionável com o mundo online de hoje.
Quanto mais uma empresa consegue amarrar a socialização à compra, amarrar a forma como a gente se vê à compra, mais as pessoas ficam envolvidas, mais preocupadas em saber daquele produto do que com a própria vida a longo prazo.
O que interessa a mim e o que interessa a eles
Isso me faz pensar no nosso comportamento online.
Rede social é rodada por empresa de bilhões de dólares, feita pra você querer comprar o que está ali, querer ficar mais tempo ali, e transferir pra elas a sua vida inteira:
a sua rede de sociabilidade, as suas habilidades, as coisas que você sabe fazer.
Daí vale dar um passo atrás e perguntar:
tá, isso é o que interessa a mim, e isso é o que interessa a eles?
Até onde eu estou disposta a me doar, e isso vai me servir pro longo prazo, pra quando eu tiver quarenta, cinquenta, sessenta anos?
Não é uma matemática exata, e cada um faz a sua.
Quando a gente entende melhor a empresa pra qual trabalha, e as empresas que rodeiam o nosso universo, e o que elas querem que a gente compre, fica mais fácil pensar o que é realmente necessário.
Tem coisa que é necessária, claro. Se você é advogada e quer atender grandes clientes, vai precisar se vestir de acordo. Se você é publicitário alternativão trabalhando pra cliente gringo, vai se vestir de outro jeito.
A forma como a gente se veste tem a ver com o trabalho e com o grupo a que a gente quer pertencer, e não tem nada de errado nisso.
O problema é que a gente meio que se perde em vários personagens.
Antes a gente comprava pra empresa onde ia presencialmente e pra pertencer à família ou ao bairro. Agora a gente tem vários guetos online, vários nichos.
Tem produto pra ser a pessoa que corre, o youtuber nerd alternativo, a moça sexy que não pode ser sexy no escritório…
A gente performa personagens diferentes dependendo do que vai fazer, e isso sempre foi assim: você é pai naquele momento, mas é filho, é o contador do seu cliente, é o jardineiro do seu jardim no domingo.
A diferença é que hoje tem produto pra cada uma dessas coisas, e se a gente sair comprando pra performar tudo, a gente se perde de vez nos personagens, acumula coisas, gasta nossa grana e tempo com coisas que no fundo... será que valem a pena?
Racionalizar o desejo
Uma das formas que mais me ajudam é não comprar no momento em que eu quero ou acho que preciso comprar. Geralmente nada é uma grande emergência. Então eu tenho um dia, na semana ou no mês, em que eu posso abrir os sites e comprar alguma coisa. No resto do tempo, eu só coloco numa lista.
Quando chega o dia, muitas vezes eu já não quero mais, ou percebo que não preciso, ou penso “ah, depois eu vejo”. E se eu deixei pra ver depois, é porque eu realmente não precisava, então eu apago da lista. Desapego das listas rs
Se a necessidade for real, ela volta a aparecer. Aliás, se tem uma coisa em que estão gastando dinheiro, é justamente em fazer aquilo reaparecer pra você querer de novo.
Muita coisa que a gente acha super natural querer comprar não é natural. É uma engenharia complexa, feita pra fazer a gente querer. Quanto mais a gente racionaliza isso, mais o prazer da compra vai embora, aquele “uhul, preciso comprar isso”.
Uma boa é olhar pras pessoas de quarenta, cinquenta, sessenta anos e ver como elas estão indo financeiramente, o que serviu e o que não serviu na vida delas.
Criar a própria realidade
Eu não acho que compra seja algo fútil. Pelo contrário, comprar é importante, é a nossa representação na sociedade, é o que a gente usa, o que a gente tem, que empresa a gente apoia.
A questão é que a gente não precisa ser tudo, não precisa dar suporte a tudo. A gente tem uma vida só pra viver e ela vai além dessas compras.
Como é que a gente quer viver, pra além do que o marketing propõe?
Criar a sua pequena realidade. Fazer um jardim, cultivar o próprio tomate sem agrotóxico num vaso, parar de comprar tempero no mercado. Aprender como faziam filme nos anos 50 e assistir a esses filmes. Ver como as mulheres se maquiavam nos anos 80. Estudar história, geografia, através de culturas diferentes.
Fazer amigos de universos diferentes do seu, aceitar pontos de vista diferentes.
Sair desse fluxo em que comprar é estar representado e ir pra um caminho que talvez seja um pouco mais desconfortável e mais difícil no começo, porque ele não é só receber a promessa de que, se você comprar, você vai pertencer.
Pra mim, fazer tudo isso mudou a minha perspectiva de vida com o tempo. O que é sucesso pra mim, quanto dinheiro é o suficiente, como eu me vejo daqui a cinco, dez anos… ou até minha capacidade de viver no hoje, no presente.
Selecionar melhor as coisas do dia a dia mudou a minha vida por completo.
Eu adoro comprar treco: Equipamento de filmagem, coisa tecnológica, acho divertidíssimo… Às vezes quero trocar de estilo, tento coisas diferentes, fico gata, fico brega, etc. mas também já fui o tipo de pessoa que usou o mesmo “uniforme” por cinco anos, e ainda assim tinha que comprar uma nova peça do mesmo estilo pra manter o mesmo uniforme.
Comprar pra manter ou pra experimentar coisas faz parte. Esse texto acho que é pra você que talvez esteja comprando demais. E pode ser eu mesma no futuro, a Michelle do futuro, comprando demais porque quer pertencer através da compra, e não através do próprio movimento de criar, de se colocar no mundo.
“Eu não preciso comprar isso pra pertencer ou pra fazer. Eu posso fazer de outras formas, que não só essa única forma com essa única coisa que querem que eu compre.”
Por hoje é só. Me conta nos comentários o que você pensa (:
Beijo da Mica.

