uma experiência com ayahuasca
medo é sinal que algo esta diferente e não que algo esta errado
quando tomei ayuhasca no ano passado, pensei em Zuzu.
era uma doidera da música tocando, a fogueira iluminando a roda, tava deitada de barriga pra cima no tapetinho, a mão encostando na terra, fazendo carinho na terra, olhando as folhas das árvores se misturando com aquele céu limpinho que Deus botou umas estrelas a mais só ali na chapada da diamantina, com certeza.
meus amigos cada um no seu planeta, olhando o fogo pegando solto, a moça que tava dando o chá… na paz… falando com a filhinha dela, a sombra do marido dela alimentando a fogueira de lenha…
olha ali, tem tambor ao redor da fogueira!
bati um tamborzinho, bati um pouco mais… será que tô robando a brisa de alguém? magina, a gente ta na paz aqui, tamo tudo interconectado. parei pra fazer um bakasana, minha posturinha de yoga preferida. “brisa check”, pô, to com bom equilíbrio.
que mágico né, o peso todinho do corpo nas mãos… no bakasana as mãos pedem licença aos pés para serem nossas raízes móveis por um tempinho, nossa única área de contato com o solo, raízes como as das árvores, bem aqui abaixo desse tapetinho, por dentro da terra, ta tudo interconectado.
talvez eu vá morrer. tipo. vou. mas tô querendo dizer, agora mesmo. talvez vá morrer agora mesmo. vou até deitar aqui, porque meu estômago não ta legal. bem que falaram que dava vontade de vomitar, de cag4r…
será que dizem que é pra vomitar justamente pra essa brisa de morrer ir embora? será que se botar pra fora tudo isso, volto ao “normal”?
fui andando pro meio da florestinha, abaixei de cócoras, o som das coisas lá longe, bom, vamos lá. nada. o estômago revira… mas fora onde né, não tem como “eu” ta fora do normal se somos todos o mesmo organismo, ta tudo interconectado.
volta pro tapetinho, “brisa check”, vou dar uma meditada, monta a lotus, fechar o olho na frente da fogueira é uma viagem né, imagina se todo mundo fizesse isso no São João… Zuzu.
como o pelo dela é macio, cinzinha e branco. ela gosta de morder meu cabelo e só vem no colo de verdade quando é inverno. espero que esteja tudo interconectado, pra ela sentir o carinho que tô mandando pra ela agorinha. beijinho, Zuzu. acho que tô meio doidinha sim, vou deitar pra ver o céu de novo.
saudade dessa pequena
e da imensidão do paraíso
se você nunca tomou ayahuasca e gosta de ouvir relatos, aqui um muito breve:
como contei, esse quem ministrava era uma família, então eram eles, eu e mais três amigos naquela noite. a moça era de um grupo tradicional em Salvador e tomava há mais de 15 anos.
quem toma ayauhasca?
na vida, conheci algumas pessoas que como eu tomaram só uma vez, pra ver como é. pessoas de todo tipo de “background”.
conheci uma pessoa em Natal que toma desde or 15 anos com a família/grupo. é uma pessoa que trabalha em banco, na área de T.I. e faz mestrado em ciência da computação.
uma outra pessoa de Jundiaí conheceu a medicina (alguns chamam ayahuasca só de “medicina”) com vinte e poucos anos, passou um ano ou mais tomando toda semana, ela era tradutora antes, depois foi trabalhar em uma empresa de produtos pra cabelo e viaja pra vários países como representante comercial ou algo assim.
num grupo de escrita conversei com um psicólogo que tomava regularmente em São Paulo num lugar em que te dão o chá, você senta em poltronas e pode ficar escrevendo e desenhando enquanto passa pelo processo.
alguns dias depois do ritual que participei, eu e esses amigos fomos comer uma pizza com um casal lá na chapada, a moça é médica, acho que em São Paulo se não me engano, e disse tomar de duas em duas semanas, há anos. inclusive ela deu toda uma explicação sobre manutenção dos níveis de serotonina e o uso do chá.
isso pra nomear só algumas pessoas, algumas outras vivem a viajar ou fazer trilhas por aí, não tem trabalhos “formais”, outras vivem e trabalham justamente com a comunidade relacionada ao chá, mas quis trazer esses exemplos acima e pontuar trabalho, cidade, etc. caso você que esteja lendo não saiba que no brasil, por todo o território, muitas pessoas vivem vidas completamente “normais” e tomam ayauhasca regularmente, mas não saem por aí contando pra todo mundo.
foram isso, gostaria de dizer que é similar a quem usa doses de cogumelos de forma contínua e assistida, inclusive nos EUA agora ta bem comum e, bom, de Nova York a Índia, desde que a humanidade é humanidade, a gente toma substâncias que alteram a percepção do tempo e espaço pros mais diversos fins, a brisa passa e a vida continua sendo o que é… mais ou menos rs
quanto tempo dura
o ritual tem hora marcada pra começar e pra terminar, se você já tomou algum alucinógeno, pode achar meio estranho, como saber exatamente quando as pessoas podem ir embora em segurança?
bom, a substância realmente parece ter um tempo bem previsível dentro do corpo, ao mesmo tempo que ela fica extremamente e intensa durante seu pico, quando vai embora, a sensação de normalidade e lucidez volta muito forte.
no meu caso, tudo começou por volta das seis da tarde e por volta da meia noite fomos embora. pra mim, deu até um cansaço de esta ali e só queria pegar o carro e voltar pra casa de boas. foi muito tranquilo voltar dirigindo.
foram três doses, elas são dadas em intervalos de tempo, então todo mundo toma a primeira, passa um tempo eles oferecem a segunda e depois a terceira, mas só toma essas duas outras quem quiser. se você não ta se sentindo legal, ninguém vai te obrigar a continuar tomando nada.
qual a sensação?
é importante lembrar que, mesmo tomando o mesmo chá, cada pessoa ali presente vai ter uma reação diferente. imagina outros chás, outros dias, outros grupos…
dizem que não dá pra pisar no mesmo rio duas vezes: nem o rio é o mesmo, nem quem pisa. mesmo ir pro escritório trabalhar nunca é a mesma coisa. dito isso, não sei você, mas os relatos de ayahuasca que já ouvi tem dois principais pontos:
desconfortos estomacais e sensação de morte.
recentemente uma amiga de infância foi em um grande ritual, com várias pessoas ali e ela não sentiu nada. nadinha. ela voltou pra casa com a sensação de que não tinha tomado chá nenhum, mesmo que todos ao redor estivessem ao lado dela tenham tido as reações mais diversas.
no meu caso, um grupo pequeno, uma pessoa passou mais mal do estômago, de vomitar e ir no banheiro, os outros nada. eu, como disse ali em cima, apesar do desconforto, não vomitei.
fora isso, tive muito a sensação de que tudo esta interconectado, as pessoas, a natureza, as histórias, as dimensões do tempo… uma sensação corpórea de estar interconectada.
mas sinceramente eu tenho essa identificação intelectual com “somos todos componentes de um todo” desde muito nova (cresci uns anos na frente de um templo budista tibetano, li muito sobre isso na adolescência, fiz retiros de silêncio, pratico yoga há mais de duas décadas etc) e acho que é esperado que qualquer coisa que você tome potencialize suas crenças.
porém, foi a primeira vez que senti que algum dia poderia me desfazer nessa interconexão. tipo, perder meu eu dissolvido no todo completamente. não só na floresta, mas no ar, céu, espaço, sei lá, morrer, a consciência de se desmaterializar e o corpo e virar elemento carbono sabe.
entender isso é uma coisa, sentir com o corpo inteiro é… a morte. acho que senti, e isso não é fácil de descrever em palavras. é muito intenso de verdade o lugar que a erva te leva, um pouco aterrorizante em partes, e isso que tomei uma vez e provavelmente com um chá de concentração não tão forte.
mas não tive terrores a ponto de achar que não ia voltar. já tinha tomado cogumelo em concentrações mais altas, por exemplo, então talvez meu corpo entenda que a percepção do tempo, da duração das coisas, muda completamente quando em estados de alteração da consciência. e talvez quem tome alguns tipos de remédios psiquiátricos (prescritos, vendidos em farmácia) tenha esse entendimento também.
bom, tudo ali é feito pra você estar seguro, por que mais se faz um ritual se não pro bem de todas as partes ali envolvidas? no meu caso, a família estava ali pra cuidar de todos e tomariam qualquer providência pra estarmos bem…
por fim, acho que como o dr. huberman diz no vídeo abaixo, por mais que tomar altas doses (de cogumelo ou um chá como ayahuasca, peiote) te leve a lugares muito obscuros, você acaba tirando algo positivo disso e acho que é toda a ideia:
por falar em cogumelos, indico esse incrível documentário:
e por fim, essa palestra com nosso querido neurocientista, Sidarta Ribeiro, explicando como a sensação de ayahuasca é parecida com o sonhar:
beijos,
da mica (:







