o peso da herança e o desejo de quebrar padrões
sobrevivência como identidade & desejo mimético
Existe uma maldição que todo mundo que vem de família disfuncional jura que vai quebrar: repetir a história dos pais. 'Não vou ser como minha mãe', 'jamais vou criar meus filhos assim'… daí a vida acontece, e de repente você está ali, reproduzindo exatamente aquilo que jurou nunca fazer.
Ontem recebi uma notícia difícil e passei o dia inteiro sofrido pensando como poderia solucionar um problema complexo de uma pessoa da família, sendo que eu mesma não tô na melhor das situações. É uma ironia cruel, querer salvar quem amamos e acabarmos afundando junto, de novo e mais uma vez…
Os problemas que vêm de gerações rapidamente engolem toda e qualquer boa vontade, porque é o lugar conhecido, o desejo mimético. Então acaba sendo muito difícil quebrar os padrões se a gente não tá muito atento, se os outros ao redor não estão também conscientes da mudança ou se a gente não vai para ambientes e estruturas que nos dão suporte e nos induzem a viver diferente.
O peso da herança brasileira
Quase toda família brasileira tem alguém se afogando em dívidas, dependência química, pessoas com problemas psiquiátricos marginalizados na sociedade, violências normalizadas como 'amor duro'… na minha família & família estendida, pelo menos, tenho ou já tive que lidar com todas essas questões.
Somos uma nação jovem (inclusive aqui na Ásia é muito engraçado, porque eles chamam a gente de "New World") e viemos de um passado muito duro de exploração. Nossos avós, bisavós e tataravós chegaram no Brasil de todas as formas possíveis, menos por escolha livre: africanos sequestrados e escravizados por séculos, italianos fugindo da fome e da guerra expulsos por um país que não sabia mais o que fazer com tanta pobreza, japoneses literalmente vendidos pelo próprio governo que precisava se livrar do excesso populacional, libaneses e sírios escapando do Império Otomano em colapso, nordestinos fugindo da seca em paus-de-arara, indígenas sendo expulsos pra qualquer canto desse país continental…
Todo mundo tem uma história dessas na família: o avô que chegou sem falar português, a bisavó que nem sabia escrever o próprio nome, o parente que mudou de sobrenome para esconder a origem, a família que perdeu tudo e recomeçou do zero três, quatro vezes.
Pessoas com passados desconhecidos às vezes por opção (era melhor esquecer o horror), mas na maioria das vezes porque foram obrigados a deixar tudo para trás: documentos, fotos, histórias, até a própria identidade. E isso marca. Gerações depois, ainda estamos processando traumas que nem sabemos nomear, repetindo padrões de escassez e sobrevivência que faziam sentido na guerra, na seca, no navio negreiro, nos segredos no meio da mata, mas que hoje só nos aprisionam.
Sobrevivência como identidade
As frases que herdamos são pesadas: "é você e deus", "trabalhar tem que ser árduo pra ser válido", "sonhar alto demais é perigoso", "família é família" – e aí tudo vale ali dentro porque é um organismo e muitos silêncios ficam ali só pra manter aquela sobrevivência daquele grupinho.
O problema é que sobrevivência virou identidade e esses grupinhos familiares se cristalizaram no modo de emergência: o que salvou nossos avós agora nos sufoca. E quando alguém tenta atualizar o sistema operacional familiar, é visto como traidor, como quem está negando a história, desonrando o sacrifício dos que vieram antes ou tentando se unir "ao inimigo".
Essa coisa do "não sonhar alto demais" me pega. Lembro de um dia que fui no Aparelha Luzia, ali no centro de São Paulo, perto de onde eu morava, entre Barra Funda e Campos Elíseos, uma casa de resistência preta muito famosa e representativa. Fui no lançamento de um livro (link) em que a pessoa falava que nasceu numa comunidade e quando saiu porque sonhava com uma realidade diferente e foi viver outras coisas, ascendeu economicamente e tal... passou a ser rechaçada pelo grupo.
Isso me deixa pensando: qual é o caminho se não sonharmos alto, se não quebrarmos os padrões? A outra alternativa, a de manter como as coisas estão, não parece muito bacana…
O desejo mimético e o preço da mudança
E isso acontece em todos os grupos, porque vivemos do desejo mimético: você vê alguém desejando algo e passa a desejar também. Isso cria um desejo coletivo compartilhado no grupo, os mesmos símbolos de status, os mesmos estilos de vida.
Numa família pobre: todos desejam "estabilidade", "não chamar atenção", "ter o suficiente"
Numa família rica: todos desejam "manter o patrimônio", "casar bem", "estudar em tal colégio"
Num grupo intelectual: todos desejam "citar os autores certos", "desprezar o comercial", "parecer erudito"
René Girard (que fundamentou o conceito de desejo mimético) diria que toda exclusão social é, no fundo, sobre manter a coesão do grupo através do sacrifício de quem ousa desejar diferente.
Então o pobre que ganha grana é traidor. Assim como o rico que nega os símbolos da classe, o militante que vira religioso, a mística que vira acadêmica… Mudar de mundo é virar estrangeiro em dois lugares: no que você deixou e no que ainda não te aceitou completamente.
Cada transformação é uma pequena morte social. Alguns grupos não aceitam "membros divididos" e você não consegue ter um pé em cada mundo sem se partir ao meio.
As máscaras da sobrevivência
Por isso alguns preferem mudar por dentro e fingir por fora.
Não sei se vocês já viram esses casos de pessoas que, quando morrem, os filhos descobrem que elas tinham muito dinheiro guardado, mas nunca contaram a ninguém e nem mudaram o estilo de vida. É como os casos de ricos de favela: por fora a casa é um barraco, mas por dentro é mais luxuosa do que a comunidade inteira poderia pagar. Ou do rico que tem uma mansão por fora, mas é tudo caindo aos pedaços por dentro.
Tem quem prefira ficar no mesmo ambiente, mas quando o grupo é destrutivo, aí começa a tortura: você tenta mudar, mas a noção de identidade e a pressão do grupo te puxa de volta pro comportamento sabotador. É um elástico emocional – a dor de não pertencer pode ser tão insuportável quanto a dor de pertencer a algo que te destrói.
É difícil se desvencilhar dessas heranças invisíveis, mesmo quando racionalmente você quer fazer diferente e melhor pras próximas gerações, mesmo quando é pro nosso bem e pro das pessoas ao nosso redor…
(continua em outro post)


