a gente muda com o tempo
pela literatura e pela neurociência
depois de certa idade, você deixa de ser produto do seu ambiente ou da forma como foi criado.
em algum momento, culpar o passado se torna uma distração do seu futuro. com o passar dos anos, viver da maneira que você vive é mais e mais uma escolha pessoal.
a cura é sua responsabilidade.
o crescimento é sua decisão.
pouco a pouco.
eu não tô falando de transformação pessoal á lá livro de autoajuda estadunidense.
tô falando de cura de traumas passados entre gerações e de reinvenção pessoal como uma recusa de passar pra frente um estilo de vida destrutivo.
do sofrimento, arrastado pelas gerações passadas que não tiveram recursos pra lidar com os traumas - de guerra, imigração, escravidão, ou do que for.
um aviso:
outro dia tava falando do peso das heranças familiares e o desejo de quebrar padrões, de fazer diferente. hoje resolvi trazer de volta esse tema…
encare esse espaço como uma conversa - a gente muda de assunto, da risada, depois lembra de outra coisa, volta e assim vai…
uma vez ouvi a Hebe contando em entrevista que se encontrava com as amigas pra jogar cartas e elas continuavam os assuntos do ponto em que pararam no último encontro, meses atrás. essa é todinha a energia dessa newsletter:
literatura
dois exemplos de quem passou por esse processo complexo e controverso são os dois queridos da literatura francesa contemporânea:
sobre a autonegação e reinvenção, Édouard Louis, descreve também como que a transformação pessoal passa pela aparência física e sexualidade. um dos meus livros preferidos “mudar: método”:
ele narra sua própria metamorfose, como foi seu processo de amadurecimento de Eddy Bellegueule, nascido na classe operária em uma pequena cidade no norte da França, até se transformar em quem é hoje, Édouard Louis, escritor de sucesso internacional - tão internacional que ele já foi na nossa querida roda vida.
a ganhadora do nobel de literatura de 2022, annie ernaux, que fala sobre sua mudança de classe social pela via da educação e como isso mexeu com suas relações familiares com o seu livro “o lugar”:
na real a ernaux pode ser considerada a precursora nisso que é a “auto-sócio-biografia”, uma mistura entre história pessoal e sociologia. e que é toda a diferença também de uma literatura de auto-ajuda genérica, porque contextualiza que toda transformação pessoal esta inserida em uma época e em uma realidade sócio-econômica complexa.
neurociência
essa transformação só é possível se você fica consciente do que os neurocientistas chamam de “script cognitivo”.
esse roteiro que foi escrito pra você pelas pessoas que te criaram e pelo lugar onde você nasceu. esse roteiro que descreve o que você performa em pensamentos, palavras e expressão corporal (expressões faciais, como você senta, abraça, tudo…), onde caminha, com quem fala, onde evita frequentar e com quem nunca falaria.
vir
pra quebrar esses padrões, é preciso observar o que você esta fazendo, sem julgar, pensar de onde você aprendeu a falar de certa forma, sorrir em algumas ocasiões, se você gosta mesmo de falar isso ou aquilo em grupos de amigos ou trabalho, ou se você gostaria de experimentar outros “scripts” de comportamento nas mesmas situações.
ser intencional.
perguntar o porquê das pessoas ao seu redor passarem o tempo fazendo x ou y.
fingir que você é um antropologista da sua própria cultura e vida.
esse processo científico-antropológico é legal de ser feito também se você tem dúvidas sobre o que fazer na vida:
ao invés de ignorar, observar.
responder “por que”, “como”, ”onde", qual a duração desses comportamentos e eventos… assim você cria hipóteses sem julgamento moral, sem “peso cristão”, mas do ponto de vista da curiosidade.
á partir daí, experimenta novas formas de agir, reflete sobre isso e itera sobre os experimentos…
não importa qual o destino final, realmente não tem como saber, por isso não é muito como uma auto-ajuda estadunidense, que tem um objetivo claro romantizado e padronizado pra todos nós.
o destino, é claro, não vai estar escrito no roteiro que escreveram pra você. por isso mesmo que é doloroso, complexo e controverso: preferir seguir um caminho declaradamente incerto, do que fazer como a maioria de nós e seguir o roteiro que nos foi dado fingindo que sabemos com certeza o destino dele.
um abraço,
até mais,
Mica (:
por falar em transformação, ainda tô digerindo o que foi conhecer o oriente médio e pensar que há poucas décadas, ali onde era deserto, agora são prédios enormes e construções luxuosas… não escrevi sobre isso ainda, mas comentei no quinze artistas palestinos, da uma olhada lá:







