a cidade refletida no transporte
as dinâmicas e privilégios em cada modal
dei o azar de pegar uma gripe fodida nesses últimos dias aqui em Seoul.
pode ter sido o cara que tossiu descontroladamente ao meu lado no metrô ou o outro que espirrava loucamente no ônibus lotado.
que saco.
andar de transporte público tem esse porém e só tô falando isso como um péssimo gancho pra falar de mobilidade urbana e botar aqui fotos desconexas que tiro no transporte por aí kk
tem um urbanista (não lembro o nome agora) que tinha um ritual que eu me identifico muito rs inclusive realmente coloco em prática: em cada cidade que visitava, ele fazia questão de pegar transporte público nos horários de pico para compreender a dinâmica local de mobilidade.
ri sozinha quando li que a parceira dele “tinha que” acompanhar essas expedições, incluindo uma viagem de quase três horas de ônibus até Coney Island só para entender o commute diário dos trabalhadores, só pelo estudo de caso, divertido kk
o transporte público é uma janela para entender qualquer cidade. É ali que você percebe os ritmos do dia a dia, como as pessoas se comportam juntas, quem depende do busão por necessidade e quem escolhe o metrô por conveniência.
como cidade encara a mobilidade, se é um direito de todos ou um privilégio de poucos.

óbvio que os ultrarricos vivem em outra realidade, helicóptero, motorista particular... o que me chama atenção é a classe média / média alta: em alguns lugares, o cara que ganha bem não se acha especial demais pro metrô. em São Paulo? A galera se individa com carro pra não ser fragrada no busão.
fora isso, além de cada cidade, cada bairro tem suas peculiaridades, claro.
vi um cara ser esfaqueado no U-Bahn no bairro de Kreuzberg em Berlim. E em Tóquio tem diferença entre o caos de Shinjuku e o tédio corporativo de Ginza, claro, mas quando você vê gente de todo tipo dividindo o mesmo vagão regularmente, fica claro que ali o espaço público é realmente mais democrático, não só de quem não tem outra opção. (ou será que quase ninguém tem opção, já que as cidades estão cada vez mais caras e o abismo social cada vez mais alarmante? kkrrying)
O transporte como espelho social
O carro fragmenta o tecido urbano, cria ilhas de isolamento em meio à multidão (fora as ilhas de calor rs). Quando escolhemos o transporte público, escolhemos participar da vida coletiva da cidade, mesmo que isso signifique ocasionalmente pegar uma gripe de alguém tossindo do nosso lado, ficar meio apertado em horário de pico & outros imprevistos - e todo modal tem seus imprevistos!
Como disse o filósofo André Gorz:
“…o carro tornou a cidade grande inabitável. Tornou-a fedorenta , barulhenta asfixiante, empoeirada, congestionada, tão congestionada que ninguém mais quer sair de tardinha.”
Em 2018 em Montevidéu vi um lambe de um carro com a frase: "si puedes pagar, puedes tenerlo": se você pode bancar, você pode ter… e essa simples arte é como uma tatuagem na minha mente até hoje.
É um saco viver sobre essa lógica que reduz o acesso urbano ao poder de compra, ignorando completamente o impacto coletivo, ainda mais em cidades com milhares de pessoas. O carro não tem nada a ver com mobilidade, é mais sobre conforto extremo.

Sei que pode soar contraditório e talvez até pedante defender o transporte público quando se tem outras opções, mas é justamente por isso que acho importante: quando você pode escolher e ainda assim opta pelo coletivo, está fazendo uma declaração sobre que tipo de cidade quer construir.
As cidades são organismos vivos, construções da modernidade das quais todos participamos, mesmo quem se sente sozinho na multidão faz parte de algo maior e quando fragmentamos esse organismo com carros individuais, criamos ilhas de isolamento que negam a própria essência urbana.

Como disse Ermínia Maricato, o automóvel transformou nossas cidades em espaços hostis para quem não tem carro. É um ciclo vicioso: quanto mais gente tem carro, pior fica o transporte público, mais gente quer ter carro.
o privilégio de poder escolher o “desconforto”
Dias atrás, uma colega (com quem morei em Kyoto e que por coincidência também veio parar na Coreia) comentou que é um alívio entrar num carro pra fugir do calor infernal de Seoul no verão. Eu entendo. Mas ainda assim, prefiro a doidera de escolher 40 minutos de metrô ao invés de 25 num carro com ar condicionado.
Sinceramente, 10 minutos a menos no transporte, mudam a vida? Valem mais do que o bem estar coletivo? Isso sem falar em quantas vezes as pessoas preferem ficar mais tempo no trânsito dentro do carro do que pegar um ônibus nem tão cheio, acontece.
No metrô esses 10-20 minutos extras viram tempo a mais lendo, ou ouvindo podcast e observando a vida acontecendo ao redor.

Pode ser que pra quem cresceu dependendo do transporte público lotado essa fala soe meio ridícula, é claro que é melhor ter um carro sempre a sua disposição!
Bom, mas eu cresci em um ambiente em que a família ascendeu na geração dos meus avôs, logo todos os tios na família sempre tiveram carro, mas rolavam uns debates:
Um avô queria mostrar que subiu na vida e comprava uns carros chiques, o outro era mais estoico e dizia que carro era tudo lata de sardinha e só trocava Kadet por Kadet (inclusive por essa influência eu tive um Kadet 92 por alguns anos heh)
Minha mãe até tirava sarro do meu pai, porque ele gostava de ir de ônibus para o trabalho, como se aquela escolha fosse excêntrica, uma tentativa de “salvar o planeta” sozinho (um herói, ia da vila madalena a pinheiros, nos anos 90. provavelmente por pura preguiça de estacionar o carro ou pra economizar em gasolina, vai saber kk)
Anos depois, quando eu passei a andar de bike de verdade como transporte no ABC paulista e depois em plena zona central de SP, ela quase teve um treco e vivia me emprestando o carro (pra ver se eu mudava de ideia e lembrava quão confortável é, talvez? rs)
Pras famílias de classe média no fim do século, ter carro é um no brainer. É óbvio. É inquestionável, mesmo quando se mora perto do metrô…
O mais irônico é que hoje, com trabalho remoto, Uber, carros por app, patinetes e bikes compartilhados... a matemática de ter carro próprio raramente fecha, principalmente se você considera o custo oportunidade no longo prazo, no que isso seria em 20-30 anos se investido.
Mas como disse aquele pixo em Montevidéu: "si puedes pagar, puedes tenerlo".
A questão nunca foi sobre praticidade ou economia, é sobre mostrar que você não precisa fazer a matemática. É o luxo de não precisar pensar, de ter sempre a opção ali, parada na garagem, mesmo que você use três vezes por mês.
A escolha consciente pelo coletivo
Navegar por Seoul, Tokyo ou qualquer grande cidade através do transporte público não é apenas uma escolha prática ou ambiental. É uma forma de pertencimento, de compreensão, de participação na vida urbana em sua forma mais autêntica.
Pode parecer romantização boba de quem tem o privilégio de escolher. E talvez seja mesmo, mas gosto de tirar onda que, por ter nascido em uma metrópole de 10 milhões de habitantes, tenho a "vantagem" de navegar qualquer cidade, em qualquer metrô, trem, ônibus e bike como uma quest divertida.

Observar as diferenças entre linhas, os tipos que pegam cada modal, os horários de pico, se estacionam na faixa de bike ou se tem sinalização para deficientes visuais nas áreas mais centrais... observar é aprender. (se tem uma coisa que essa newsletter presta é fazer qualquer pessoa ter horror de viajar comigo kk)
Aqui vai uma dica de bom livro sobre o tema (link pro Goodreads):
um abraço migs,
té mais (:







ver a dinâmica de cada lugar no transporte público é muito rico, sou fãzoca ✨
Adorei o post! Lerei o livro. 🙆🏻♀️