o que tem no brasil
pela visão de quem nunca foi
📍Doha, Quatar
vou te contar uma coisa que penso sempre que falam em brasil.
pra começar, eu não faço amizade com Israelis.
é janeiro de 2026, estou no oriente médio, em Doha, num restaurante italiano que tem bossa nova brasileira de trilha sonora. esse desconhecido sentado ao meu lado vai me contar o porquê ele nunca foi ao Brasil e não sabe se iria.
depois de um ano inteiro na ásia, acabar de conhecer alguém que começa uma frase com um fato polêmicos e um mistério, aparentemente desconexos, soa como elixir aos meus ouvidos.
generalizando, na minha experiência com asiaticos até agora, as conversas são mais lineares, tem certa hierarquia na ordem dos acontecimentos, não é tão comum linkar fatos aleatórios na mesma história, muito menos polêmicos, principalmente quando se conversa com alguém com quem você não tem intimidade.
por exemplo, diferentes pessoas da inglaterra que conheci esse ano chegaram a comentar que vietnamitas, koreanos e japoneses geralmente não usam, não aceitam ou não entendem sarcasmo muito bem.
enfim, papo pra outro texto, voltando aqui pra Doha:



fui num encontro de filosofia, discutimos em grupo ‘o que é o amor?’ e questões relacionadas (funfact: o tópico de ter várias esposas apareceu bastante, já que estamos em um país muçulmano) e corta agora pro jantar pós evento.
a gente pediu os pratos de comida e esse cara do Egito resolveu compartilhar comigo:
vou te contar uma coisa que penso sempre que falam em brasil.
pra começar, eu não faço amizade com Israelis.
eu estava no interior da Colômbia e outros dois turistas que também tinham acabado de chegar no hostel e estavam famintos perguntaram se poderiam ir jantar comigo e eu disse que sim, mas que queria andar até lá, uns 40 minutos.
no caminho, eu muçulmano, descubro que a menina, de 22 anos, é israeli.
_ é, conheci bastante Israeli viajando a américa latina, eles vão depois do período obrigatório que eles tem de cumprir no exército!
sim, então, eu não sabia que era chance grande de conhecer Israeli por ali e o pior é que a guerra tinha acabado de começar…
então logo pensei, vou levantar os assuntos polêmicos, a gente briga e não tenho mais que lidar com ela nos outros dias no hostel.
mas todo tópico que eu levantava, ela era uma pessoa razoável.
ela dizia que entendia meu ponto e era claro na carinha dela que era muito controverso na cabeça dela as coisas que tinha aprendido enquanto nascida e criada em Israel e o que ela via do outro lado da moeda.
no dia seguinte logo pela manhã ela bateu na porta do meu quarto, perguntou se podia fazer o rolê das vinícolas comigo…
eu disse que queria ir sozinho.
mas ela insistiu, disse que ela não queria ir sozinha e só tinha eu pra ir junto, se eu não podia fazer um esforço de ir com ela.
acabei topando e passamos um dia bem bacana, ela disse que de lá, ao invés de continuar o itinerário meio esperado de turistas na Colômbia, ela iria ao Brasil.
o sonho dela era conhecer o brasil, ela sentia quase um chamado de ir ao brasil.
passou uns dias.
passou uns dias e eu tava no twitter, tava acompanhando uma discussão em que o país muçulmano X estava apoiando Israel na guerra e, como protesto, um civil matou um turista israeli.
sinceramente eu era á favor do cara.
eu não queria que o país X apoiasse Israel e se pra ter um embate político fosse preciso matar israelis no país, mesmo turistas que não tem nada a ver, eu era á favor.
na mesma sessão de comentários alguém linkou outra notícia e disse
“parece que hoje não é um dia bom pra israelis”.
eu cliquei no link e tava lá, a foto dela…
turista de israel é morta num assalto no rio de janeiro.
os pratos chegaram na mesa e tavam esfriando ainda, mas eu não conseguia tirar os olhos dos olhos dele e comecei a chorar.
o pior é que assim que ele começou a falar a parte do twitter de notícia de morte eu já tinha entendido, que ela tinha morr!do no brasil…
é eu chorei no dia também.
foi muito estranho, controverso..
não fazia nem uma semana que ela tinha ido pro brasil.
eu abri o whatsapp e vi que minhas mensagens não chegavam pra ela.
eu ainda queria que o outro cara tivesse morrido e que qualquer coisa fosse feita pra que ninguém mais apoiasse mais Israel na guerra.
eu ainda não faço amizade com Israelis.
mas naquele dia eu chorei por ela.
“Viajar não é uma recompensa por trabalhar. Viajar é educação para viver”
Anthony Bourdain
essa história me lembrou de que quando tava na faculdade trabalhei dois anos numa ong chamada ‘AIESEC’.
é uma ONG internacional criada logo depois da Segunda Guerra Mundial com a ideia de que se pessoas muito diferentes se conhecessem de verdade, talvez o mundo brigasse menos.
na prática a ong promove intercâmbios de jovens para trabalho voluntário, projetos sociais e estágios profissionais em quase todos os países do planeta.
funciona como uma rede global gerida por jovens: você se inscreve, passa por um processo seletivo, escolhe um projeto ou vaga fora do país e recebe apoio da organização tanto na ida quanto na chegada.
não é uma instituição perfeita, é até meio mais corporativa hoje em dia, mas ainda acho que a essência no fundo é bem transformadora, pelo menos foi pra mim a parte da aposta de que viver a experiência do “outro lado” forma lideranças mais conscientes e menos propensas a enxergar o mundo em blocos inimigos.
a ideia não é turismo pelo turismo, mas que viver o cotidiano do outro: trabalhar junto, dividir casa, lidar com diferenças culturais, políticas e religiosas na prática… faz com que a gente veja humanidade nos outros.
esse tipo de iniciativa é uma contribuição importante pra gente ver o mundo e a vida de diferentes ângulos. gosto de pensar que quando a gente muda de ideia e quebra preconceitos, a gente aprende a amar um pouquinho mais o mundo, as pessoas… e a gente da uma segunda chance até pra gente mesmo em diferentes aspectos da vida.
e esse post não tem lá muito feischamento rs é um misto dos paradoxos e contradições, entre estereótipos, preconceitos… que ás vezes se concretizam sim, as vezes, como nesse caso do Brasil.
essa não foi a primeira pessoa que me contou um causo chocante sobre o BR e não tem muito o que fazer nessas horas, é isso, acontece mesmo. muito mais do que na maioria dos lugares e geralmente em uma escala mais abrupta e chocante mesmo.
por outro lado, não conheço no mundo lugar mais musical e com festas mais alegres do que no Brasil, e geralmente gringos me falam isso também. assunto pra outro post.
bom começo de ano pra nós (:
2025 não foi fácil pra esse planetinha,
acho que 2026 não vai ser também,
mas espero que tenham feito suas mandinga, escrito as metas do ano
e seguimos segurando os paradoxos dessa vidinha. né mesmo?…
beijos da Mica
até mais (:




Fiquei um tanto emocionado com sua história.
Bem, uma coisa que sempre aprendi falando com pessoas é não ser binário. Não é porque a pessoa é americana, brasileira, israelita etc. que ela se encaixa em uma caixinha com todas as características comuns desse país.
Aliás, acho que as pessoas que conhecemos em viagens são justamente as mais diferentes desses países (mesmo que as vezes não diferentes o sulficiente para eu querer estar perto). Ter o privilégio de conhecer outros países nos dá outras vivências e contato com culturas interessantes, até para “melhorar” as ideias dos países delas.
Essa menina viveu experiências com você que não seria simples a ela, infelizmente algo trágico aconteceu, e não controlamos isso, mas pelo pouco que esteve contigo, esteve feliz.
PS: Uma coisa que achei absurda foi que seu news caiu no Lixo Eletrônico (mas já recuperei);