quando os dias são todos iguais
e te engolem
Sobre pequenos experimentos, e como sair do dia que se repete (te consumindo por inteiro) sem precisar virar a vida do avesso.
A gente não foi feito pra viver o mesmo dia todos os dias, igualzinho. Na verdade, isso é impossível. É uma grande ficção achar que dá pra viver todos os dias iguais… O que existe é a nossa cabeça, em alguns momentos, quando a gente tá cansada, sem propósito, sem muitas escolhas, começando a sentir que tá tudo se repetindo. De novo, de novo, de novo.
Quando a gente se coloca nessa posição de só sobreviver, dia sim, dia não, parece que não foi uma escolha. Parece que a gente foi empurrada pra ali. Mas às vezes vem um chacoalhão. Pode ser alguém inesperado que chega e fala umas verdades, pode ser a gente decidindo fazer algo diferente.
E nesse momento a vida é colocada em perspectiva, e a gente olha pra trás e pensa: meu Deus, como foi que eu diminuí a minha vida toda pra ela caber aqui dentro? e o que me interessa aqui não é tanto o porquê disso acontecer, mas o pra quê continuar assim.
Esse chacoalhão vem de algo que você fez, ou de alguém que apareceu e te disse uma coisa que você precisava ouvir. É quase um chamado, um lembrete de que existem outras formas de viver, e de que é você que tá no comando.
Às vezes ele só serve pra mostrar que você estava meio adormecida dentro da sua própria vida… a gente não foi feito pra viver nessa ficção da repetição. Nosso corpo, nossa psique, nosso sistema nervoso, tudo foi feito pra viver na natureza, onde cada dia acontece alguma coisa diferente. Mesmo que os ciclos do clima tenham alguma constância, tem variáveis demais pra caber num roteiro fixo, numa previsibilidade super acurada...
Só que quando a gente tá muito encurralada por padrões sociais, e por pessoas que nem sempre querem tão bem pra gente (mesmo quando parece que querem), começa a parecer que certas coisas não são pra gente.
Viver uma vida mais diversa, aprender coisas difíceis, frequentar lugares onde a gente nunca esteve. Parece que não é pra gente ou até que é errado.
E sim, é verdade, tem coisas mais distantes da nossa realidade: caras, difíceis, que pedem muito tempo pra aprender ou alcançar. Dinheiro e tempo são recursos, e cada um de nós nasce num ponto de partida totalmente diferente, seja pela nacionalidade, pela família, por mil fatores. Isso é real.
Mas também é real que existem muitas formas de acessar o mesmo conhecimento, de frequentar os mesmos ambientes, de fazer as mesmas coisas que as pessoas e situações que admiramos. Quase sempre tem mais de um caminho pra “chegar lá”.
Tem um exemplo de que eu gosto, do filme Que Horas Ela Volta?
A Val, personagem da Regina Casé, sai do Nordeste e vai trabalhar como “empregada doméstica” numa casa de gente rica em São Paulo.
Ela passa anos ali, vivendo a vida inteira igualzinha, achando que tá sendo cuidada, achando que aquele é o lugar dela.
Até a filha dela chegar e perguntar, do jeito mais simples: e a sua vida, cadê? Por que você se submete a isso?
A Val não via que podia ser mais do que aquilo, que podia ser mais feliz fora daquela casa, porque a mente dela tava condicionada ao que aquelas pessoas falavam e ao que ela conseguia enxergar dali de dentro.
É um exemplo extremo, que talvez não tenha nada a ver com o seu universo nem com o meu. Mas é um bom paralelo, porque todos nós, em algum momento, nos colocamos numa situação repetida em que todos os dias são iguais, achando que estamos confortáveis, quando na real estamos apertando a nossa vida pra caber numa submissão a algo que tá condicionando a nossa mente.
E esse algo pode ser muita coisa. Pode ser gente que se importa com a gente, mas que também tá condicionada por outros padrões tóxicos. Ou pode ser gente que só quer se aproveitar mesmo, como as grandes empresas de tecnologia que fazem a gente viver dentro das redes sociais. Dá pra ir do micro ao macro nessa reflexão…
Uma hora ou outra, eu e você, a gente percebe que caiu de novo nessa inércia em que todos os dias são iguais, passar horas nas redes sociais viciantes ou em empregos que nos botam pra baixo. Não é culpa de ninguém. As pressões dessas empresas multimilionárias e de décadas de condicionamento social são enormes, e estão presentes o tempo todo.
Mas dá pra tomar as rédeas, pelo menos de vez em quando. Dá pra se certificar de que a gente tá trazendo diversidade pra própria vida.
E é aí que entram os pequenos experimentos.
Transformar o conceito grandão em algo pequeno
Há um tempo atrás li o livro que recomendo muito, da Anne-Laure Le Cunff, uma neurocientista que fundou o Ness Labs. Chama Tiny Experiments.
É quase um livro de divulgação científica, bem fácil de ler, bem digerido, daqueles que pegam um conhecimento mais complexo da neurociência e traduzem pra aplicar no dia a dia. (Ainda não sei se isso seria nossa “auto a juda 2.0”, mas enfim).
No livro ela fala bastante da nossa relação com o tempo, de como a gente acha que o tempo é linear quando ele não é, mas o que eu quero pegar dela é mais a ideia dos pequenos experimentos.
A ideia é a seguinte: você pega um desejo seu, de aprendizado ou de experiência, e transforma em algo menor.
Vamos supor que você queira trabalhar numa grande empresa, ou fazer um mestrado, ou ter uma família com cinco filhos.
São metas, ideais, coisas que a gente olha e quer. Mas muitas vezes elas estão tão longe da nossa realidade que até amarga um pouco. A gente pensa: ah, isso não é pra mim, é muito difícil, eu não nasci com as condições pra isso, esse não sou eu.
E o ponto é: você ta sofrendo, mas nem sabe se você quer isso mesmo.
Você tem uma ideia, uma imagem da vida de outras pessoas que tem isso, mas não sabe como é trabalhar pra chegar lá, nem como é experienciar de fato, na qualidade que você imagina.
Então um jeito bacana de não sofrer a vida inteira com coisas que você acha que nunca vai ter, ou de não perseguir algo cegamente pra chegar lá e descobrir que nem era o que você queria, é fazer um pequeno experimento. Transformar o conceito grandão em algo curto, simples, barato, adaptado à sua realidade.
Vale lembrar que o experimento nunca é a coisa em si. O mapa nunca é exatamente o território, ele é só uma representação, uma aproximação.
Mas é o suficiente pra você sentir, mais ou menos, como aquilo caberia na sua vida, na sua subjetividade. E isso já expande a perspectiva… te ajuda a não virar uma pessoa que julga tanto, ou que fica amarga, e te faz entender que existem várias formas de viver, e que nenhuma é melhor que a outra. Até as pessoas que parecem estar muito melhor que você têm os problemas delas…
Dois experimentos meus
O primeiro foi antes de eu começar a viajar. Eu queria fazer um mestrado, que é um compromisso de mais de dois anos, um compromisso grande, ainda mais depois que você já saiu da faculdade, já passou dos trinta, já tem trabalho e outras responsabilidades.
Em vez de me jogar direto nisso, eu entrei num grupo de pesquisa, uma iniciação científica, que durava só um ano. Ali eu tinha contato direto com gente que fazia mestrado e doutorado, mas com bem menos pressão.
Eu já tinha feito pesquisa lá pelos meus vinte e poucos anos, em engenharia ambiental, com análise de algas pra limpeza de água. Mas isso foi dez anos antes, numa outra área, em outra universidade, quando eu era outra pessoa. Em dez anos muita coisa muda.
Vejo muita gente falando “ah, eu odeio tal coisa”, e quando você pergunta qual foi a última vez que a pessoa tentou, foi há dez anos. Eu sou super a favor de ter opiniões fortes, mas dizer que não gosta de algo que você testou uma vez, há uma década, é meio fora da escala da realidade.
Enfim, dessa vez a pesquisa era em planejamento territorial, sensoriamento remoto, programação, uma área completamente diferente e eu tinha que conciliar com uma reforma, relacionamento, morar em outra cidade, mais um trabalho normal de 8 horas por dia, remoto, e em inglês.
A “pergunta” desse experimento de vida, a “hipótese” era… era mais de uma, na real:
Será que eu consigo fazer pesquisa e trabalhar ao mesmo tempo? Será que vale a pena? Será que eu seguiria nessa área num mestrado, ou acharia pesado demais?
Um pequeno experimento não tem um tamanho exato de tempo, mas é bom que tenha uma escala meio proporcional. Guardadas as escalas, uma iniciação científica perto de um mestrado ou doutorado é, sim, um experimento.
Com esse experimento percebi que eu amo mesmo ler por horas e escrever, e estar entre pessoas que estão mergulhadas em coisas específicas… mas que ainda me faltava muito chão de auto estima pra poder lidar com minhas próprias inseguranças intelectuais e interpessoais. Precisaria me afastar de demandas pessoais enormes pra poder dar asas a esse - ainda hoje em 2026 - desejo de estudos formais acadêmicos, mas naquele momento não seria possível.
Foi assim que comecei a viajar, fui pro nordeste do Brasil por meio ano e me decidi voltar á Ásia, lugar que gostei muito de conhecer em 2016-2017. Mas antes disso…
O segundo experimento foi em 2024, quando eu fui morar em Nova York.
Morar em Nova York está fora de cogitação pra maior parte das pessoas do mundo.
É uma das cidades mais caras e competitivas que existem. E ainda assim, lá você encontra todo tipo de gente, da pessoa mais vulnerável, que não tem pra onde ir, até as pessoas mais ricas do mundo tem propriedade na cidade.
Dizer que você mora em Nova York significa coisas diferentes pra pessoas diferentes. Pra alguns é trabalhar em empresa de finanças ou tecnologia e morar num apartamento padrão de luxo com vista. Pra outros é fazer arte, literatura, jornalismo, alcançar o mundo todo, mas morar no Brooklyn com gente alternativa, mesmo passando aperto alguns dias ou anos até “chegar lá”. Pra outros é ser imigrante num lugar diverso, tentar a segurança de uma cidadania forte. Pra São mil possibilidades.
Eu, particularmente, nunca quis morar lá. Na real nunca pensei muito em ir pros Estados Unidos, ainda mais depois que conheci a China. Porém, em 2024 eu tava com a ideia fixa de vir pra Ásia e morar aqui por anos… e com tanta instabilidade no cenário global, pensei que a melhor parte dos Estados Unidos como a gente conhece hoje, um centro cultural global, talvez nunca mais exista, e que eu queria ter essa pequena experiência de morar ali - mais especificamente em Nova York (NYC), mesmo.
Só que jamais gastaria todas as minhas economias pra isso e, mesmo ganhando bem ali na época, também não tava disposta a gastar exatamente o que eu ganhava sem guardar nenhum centavo, só pra turistar e “experimentar” superficialmente nyc.
Eu tava no comecinho da minha vida nômade, dando uma olhada num site chamado Worldpackers, onde você trabalha em troca de estadia, e achei um lugar em Manhattan. Era um hotel cápsula, e eu trabalhava na recepção meio período 3x por semana, perto do Empire State, em troca de hospedagem gratuita no Soho, dividindo o quarto com mais uma pessoa.
Morei três meses de graça num dos bairros mais caros de Nova York.
E moradia, vamos combinar, costuma ser o maior gasto da vida da gente. Eu nasci em São Paulo, que já é uma cidade competitiva, mas onde eu sempre tive a vantagem de ter (bem ou mal) família, casa, respaldo. Mas se você somar a vida inteira, é onde mais gastamos dinheiro… geralmente, se gasta 50% ou mais do tempo de vida atrás de segurança e conforto na moradia.
Bom, a pergunta desse experimento era mais ou menos:
Será que eu quero tentar fazer parte de uma elite global? (artística, tecnológica ou seja lá qual for ou… o que isso significa?) Será que vale a pena esse status que tanta gente persegue? E como é ser imigrante numa cidade tão internacional quanto Nova York, tentando construir uma carreira e mudar toda a trajetória da sua vida?
Eu queria sentir isso na pele, não como turista, porque ser turista em qualquer lugar não é viver lá. E não a trabalho (com tecnologia), porque eu já não estava na empresa americana que trabalhava antes e seria muito competitivo e demorado ir atrás disso - aliás é justamente essa a ideia do pequeno experimento, se eu quisesse mesmo ir atrás dessas coisas mais demoradas e “definitivas”, saberia depois do pequeno experimento.
Então vivi em Manhattan por três meses, trabalhando meio período três vezes por semana, convivendo com gente que mora e trabalha ali, de diferentes nacionalidades e diferentes perspectivas de vida.
Ficava com um professor de teatro e filosofia que morava em Bushwick, ia escalar do lado do Google com uns colegas programadores que fiz por lá, dava rolê com meus colegas de trabalho imigrantes refugiados, ou ia em jantares e meetups com gente de tecnologia e finanças.
Foram três meses intensos, e esse é um ótimo exemplo de pequeno experimento, porque tem começo, tem fim, mas principalmente aqueles momentos em que você quer desistir.
O Worldpackers não é um contrato formal, dá pra simplesmente dizer “preciso ir embora” e ir. Várias pessoas saíam com um ou dois meses. Eu fui uma das únicas do meu grupo que ficou os três meses, deu ver o bom e o ruim, “coletei uma variedade de dados”, aprendi um monte, e acho que também pude compartilhsar algumas coisas (:
A maior parte das pessoas olha pra isso e pensa: morar em Nova York nunca vai estar dentro da minha realidade, eu teria que trabalhar muito, juntar muito dinheiro, e por aí vai. E é caro mesmo.
Mas sempre tem formas e formas diferentes de fazer as coisas. Por isso, quando você pensar nos seus pequenos experimentos, pensa em instituições alternativas, em caminhos tortos, em portas laterais.
No caso do mestrado, por exemplo, em vez da pesquisa eu poderia ter me inscrito num curso online de seis meses e ido até o fim, só pra ver se eu daria conta da rotina, das leituras, se aquilo encaixaria na minha vida. É só mais uma forma.
Pequenas aventuras
Acho que viver todos os dias igualzinho, por anos e anos a fio, é muito perigoso. Você não precisa fazer grandes experimentos nem grandes mudanças de vida pra expandir um pouco o seu círculo e a sua forma de pensar.
É bom variar pra manter as relações vivas, pra ter uma vida mais próspera de diversidade, de emoções, de novidade. E, no geral, pra transformar o mundo, que eu acho que se transforma justamente assim, em pequenos indivíduos fazendo pequenas coisas diferentes, sem se deixar cair nas amarras dos poderes maiores, que sempre colocam barreiras pra gente não estar em outros lugares e não fazer certas coisas. Não que seja uma grande conspiração, mas é mais ou menos assim que as coisas funcionam.
Então saí por aí, em pequenas aventuras, fazendo pequenos experimentos. Recomendo rs Enriquece a sua experiência, em vez de arrastar todos os dias como se fossem o mesmo. Acho que essa é a ideia principal de hoje.
Vejo você no próxima,
Beijo da Mica.

