três pilares da transformação
sobre mudança de identidade
As pessoas que nos amam ás vezes são justamente as que atrapalham quando a gente tenta mudar de vida.
Não porque elas querem nos enjaular, mas porque o diferente parece inseguro pra elas, geralmente inconscientemente.
Então vamos lá:
você jurou que não ia repetir a história da sua família,
mas tá repetindo….
Esse post é parte de uma série de pensamentos sobre quebrar padrões e transformação pessoal, se te interessar, aqui os outros:
o peso da herança e o desejo de quebrar padrões: um pouco sobre trauma que atravessa gerações e por que o grupo expulsa quem ousa desejar diferente
a gente muda com o tempo: pela literatura e pela neurociência, sobre o “script cognitivo” que escreveram pra você e como virar “antropólogo da própria vida”
faça o que você não faria: pequenos experimentos e dissonância cognitiva
Como quebrar esse ciclo quando toda a força gravitacional te puxa de volta?
Essa “maldição familiar” se sustenta em três pilares:
Três Pontos de Transformação
desculpa pelo nome brega.
1. Narrativas
As Histórias que Nos Aprisionam
As histórias que contamos sobre nós mesmos até acreditar que são leis da física.
São mantras repetidos há gerações que viram verdades inquestionáveis. Dão liga ao grupo familiar, a família usa essas crenças para julgar quem é de fora. Essas histórias também servem como bússola nas escolhas de vida, quase sempre apontando pro mesmo lugar…
frases comuns:
“Nasceu pobre, vai morrer pobre”
“Nossa família sempre foi assim”
“Descansar, tirar férias, isso é coisa de gente rica e desocupada”
“Trabalhar tem que doer pra valer.”
“A gente chegou em São Paulo com uma mão na frente e outra atrás, batalhou pra ter tudo o que consquistou”. Logo nem os filhos podem sair da cidade, mesmo que estejam infelizes, endividados, adoecendo… tem que manter a narrativa.
Narrativas comuns:
A família pobre que finalmente tem condições de sair da periferia pra um lugar mais arborizado ou mais perto do trabalho, mas fica porque “não podemos esquecer de onde viemos“ ou acredita que vão ser excluídos em outros lugares (sem nunca pensar que os novos lugares também são habitados por pessoas que vieram de diferentes origens).
A classe média que se endivida eternamente porque “nossos filhos estudam em colégio particular“, sendo que o filho é meio excluído ou até ta sofrendo bullying na escola porque não tem o mesmo poder de compra dos amigos; e, aliás, a escola pública no quarteirão do lado tem até nota melhor no MEC rs
A família rica que compra a mansão e não consegue manter, a casa ta caindo na cabeça deles, mas não vendem porque “nós moramos nesse tipo de lugar“ ou “o que vão pensar de nós se mudarmos pra uma casa menor”.

São narrativas que viraram prisões: não tem uma maleabilidade de acordo com a situação, não tem uma “atualização” do sistema… sem espaço pra repensar o que mudou.
É tipo uma Sunk Cost Fallacy emocional:
Investimos tanto na narrativa que mudar parece invalidar tudo o que foi construído pra chegar até aqui, sem perceber que, ok, morar em certo lugar fez sentido até agora, mas daqui pra frente pode ser diferente, sem invalidar o que passou. É o mesmo "script cognitivo" que comentei no post a gente muda com o tempo, só que escrito a várias mãos pela família inteira.
Mudar a narrativa é considerar que tudo é aprendizado e que o mundo muda. Honrar as origens não é repetir ao pé da letra o que fizeram, mas dar continuidade. A narrativa saudável reconhece que histórias estão sempre sendo reescritas.
E como se identifica uma narrativa que virou prisão?
Comparando com outras formas de se viver, ousar imaginar realidades melhores.
Se livrar das narrativas que trazem sofrimento só é possível…
Convivendo com outras famílias, lendo, vendo filmes, conhecendo outras culturas, percebendo que existem mil formas de viver. Reparando onde sentimos inveja dos outros, onde estamos infelizes, e experimentando agir diferente, mesmo que seja desconfortável no começo.
2. Dinâmicas Sociais
Os Papéis Congelados
Sabe quando você volta pra casa dos pais e instantaneamente vira adolescente de novo? Ou quando aquele amigo da faculdade te trata como se você ainda fosse o mais novo da turma, inseguro, de 10 anos atrás? São papéis fossilizados.
É um teatro onde cada um tem seu papel fixo há décadas: a tia louca, o primo fracassado, o irmão doutor. E ai de quem tentar reescrever o roteiro.
Você é “a dramática”, “o irresponsável”, “a certinha”, “o problemático”, “a solitária” e qualquer tentativa de sair do personagem é recebida com piadas, ou com um comentário que te recoloca no “lugar de sempre”.
Cada família tem suas frases pra estigmatizar quem é de dentro: “Fulano não merece coisa boa porque fez X.” Um erro cometido aos 15 anos pesando mais que todas as conquistas aos 35.
Na minha família tem um tio bem-sucedido de quem ainda dizem “nossa, o fulano repetiu de ano, fez a pior faculdade e agora tá nessa empresona”. Eu acho hilário: o cara tem mais de 60 anos. Se 25 anos depois de sair da faculdade você não pode ter virado um profissional melhor, então tamo lascado, né rs
A dinâmica saudável é o oposto: entender que pessoas mudam e têm muitas facetas.
_ o irmão que era usuário de drogas pode virar o melhor terapeuta da família;
_ a irmã “burra” pode ter mais inteligência emocional que o tio PhD;
_ o primo rico pode ter perdido tudo e agora é ele quem precisa de ajuda…
As dinâmicas podem, devem e vão mudar. O desafio é estar aberto a enxergar isso (em você e nos outros) e todo mundo entender que mudança não é traição nem ameaça. É evolução, ou simplesmente o fluxo natural da vida.
3. Design
Ambientes
Os dois primeiros pilares vivem dentro da gente e das relações; esse mora nas paredes.
Os ambientes também seguem um roteiro: como a casa é organizada, o que fica à vista, onde cada um se senta, quais cômodos a gente evita. As coisas não ditas muitas vezes estão ditas no espaço.
Mexer nisso ajuda mais do que parece: deixar a casa mais organizada e limpa, consertar o que está quebrado, colocar à vista fotos de bons momentos. Ou, no limite, mudar de casa, de bairro, de cidade.
Pra quem fica na mesma casa, com as mesmas pessoas, numa dinâmica ruim, vale tornar os espaços de convívio agradáveis o bastante pra que as pessoas queiram estar ali, em vez de se isolarem cada uma no seu canto… se bem que se isolar pode ser também nunca em casa, sempre saindo, sempre evitando.
Enfim, é bom construir ambientes que acolhem todo mundo: principalmente os mais jovens e também os mais velhos. Mudar o espaço é uma forma de mexer no roteiro sem precisar de grande discurso, às vezes uma reforma diz mais que mil conversas. E aqui também cabe o caminho inverso: frequentar lugares diferentes lá fora e trazer essas novidades pra dentro de casa.
No fim das contas…
Não da pra virar tudo de cabeça pra baixo de uma vez.
Como falei no post faça o que você não faria, dá pra começar pequeno: Mudar algo minúsculo que te lembre que você quer mudar algo maior.
E quando a força gravitacional te puxar de volta (e vai puxar), vale lembrar que não é necesariamente por maldade, o grupo só tenta se manter coeso do único jeito que aprendeu a sobreviver.
Só que o jeito que ele aprendeu costuma cobrar um preço: alguém tem que ser sacrificado pra manter a coesão, e geralmente é quem ousou desejar diferente. É o que o René Girard chamava de mecanismo do bode expiatório (falei mais disso no post o peso da herança).
E aí se você é o tal do bode espiatório, acaba que se afastar completamente é mais “eficaz” porque mexe nos três pilares: você muda de ambiente, vai viver outros papéis sociais e experimentar outras narrativas.
Claro que isso tem um custo e é quase um luto. É virar meio estrangeiro em dois lugares: no que você deixou e no que ainda não te aceitou por inteiro, se é que você vai achar outro grupo, montar um novo, enfim… isso é papo pra outro post.
um abraço,
Mica (:


